1 Abril 2026

A Itália Que Ninguém Vê: Refúgios Longe do Turismo de Massa

Num mundo dominado pela fúria do turismo de massa, talvez seja a hora de explorar os cantos mais vazios da Itália. Poucos nomes capturam tão bem a essência de um lugar quanto Barbagia, na Sardenha. Originalmente, o poeta romano Cícero usou o termo para descrever esse pedaço sinuoso do centro-leste da ilha que se recusava a se submeter a Roma, sendo, portanto, terra de bárbaros. Hoje, a região ainda mantém aquele sabor teimoso e quase pirata. É um lugar onde uma costa celebrada se choca com montanhas selvagens e proibitivas.

O silêncio de Santa Maria Navarrese

Coincidência ou não, essa é a região mais despovoada da Itália. Tem a menor densidade demográfica do país. E isso, por si só, já é um baita atrativo. É exatamente por isso que me encontro agora absorvendo o sol como um lagarto na tranquila e exuberante costa de Barbagia. Mais precisamente, em Santa Maria Navarrese. Trata-se daquele típico vilarejo mediterrâneo modesto que você facilmente deixaria passar batido. Mas há muita história e beleza escondidas aqui. Bem no centro, ergue-se uma capela medieval austera, construída para uma princesa espanhola do século XI. Logo de cara, do lado de fora, repousa o que dizem ser uma das oliveiras mais antigas da Europa, responsável por milênios de produção de azeite.

Um cenário perfeito para devorar um panino. Ou quem sabe atravessar a rua até o excelente café à beira-mar, L’Olivastro, e pedir uma pizza acompanhada de um gelato de pistache. Com o estômago forrado, dou uns dez passos para um mergulho de fim de tarde no Mar Tirreno. O sol de setembro aquece, a areia está vazia e as águas exibem um azul penetrante, quase uma mistura de turquesa com esmeralda. Estamos a poucas horas do luxo bilionário da Costa Smeralda. Felizmente, tudo por aqui custa cinco vezes menos.

Depois do mergulho, sigo pela praia até o meu hotel. O resort Lanthia é agradavelmente discreto. Fica escondido atrás de uma enseada arborizada e privativa. A piscina charmosa está maravilhosamente intocada, exceto por mim. O restaurante deles é muito bem recomendado, principalmente pela comida tradicional sarda. Provei uma sobremesa única chamada sebadas, que basicamente é um bolinho de queijo frito e quente, encharcado com um mel sardo agridoce. No primeiro momento, decepciona um pouco. Segundos depois, revela-se absolutamente delicioso. Não me pergunte o porquê.

Vinhos, desfiladeiros e murais rebeldes

Sim, você vai encontrar ciprestes, igrejas barrocas e aqueles clássicos vilarejos em ruínas. A diferença é que tudo isso fica encravado em abismos imensos e implacáveis. É como se a Toscana tivesse sido fatiada e jogada dentro do Grand Canyon. Dizem os moradores locais que os ventos de inverno em alguns desfiladeiros de Barbagia são tão violentos que arremessam pombos contra as rochas. Obviamente, as trilhas são fantásticas. Tente o épico cânion Su Gorropu ou a subida até a vila da Idade do Bronze de Tiscali. Só faça um favor a si mesmo e vá na primavera ou no outono, fuja de dezembro e de agosto.

Minha parada seguinte é Jerzu, uma das lendárias cidades vinícolas da região. Ao chegar no topo do cume, ela surge como um borrão ocre e de concreto, pendurada em mais um penhasco. Depois de enfrentar umas oito rotatórias assustadoramente apertadas, encontro a Antichi Poderi, uma cooperativa venerada e dedicada ao cannonau, o vinho tinto encorpado da Sardenha. Os locais morrem de orgulho dessa vinícola. Eles juram que ali se produz o melhor cannonau da ilha, o par perfeito para o infame queijo com larvas da Sardenha, o casu marzu. Na sala de degustação, pergunto à recepcionista onde posso encontrar essa iguaria. A resposta dela carrega um tom de rebelião, o que faz todo o sentido. Estamos em Barbagia, afinal de contas. Esse é o povo que repeliu as legiões romanas e que até hoje cultiva um espírito revolucionário.

Esse desafio às regras fica ainda mais escancarado em Orgosolo. Até o final do século XX, a cidade era famosa por abrigar pequenas máfias. Então, lá pelos anos 1960, eles largaram os sequestros e começaram a pintar murais. Nada de paisagens fofas. As paredes foram tomadas por todo tipo de causa radical: Che Guevara, Vietnã, Mao Tsé-Tung. Hoje, ironicamente, a cidade inteira virou um espetáculo turístico. Eles literalmente capitalizaram em cima do próprio anticapitalismo.

Paz conventual no coração de Roma

Se na Sardenha a fuga do turismo se dá pela geografia indomável, na capital do país o refúgio exige olhar para dentro de muros seculares. Roma também sofre com as multidões, mas esconde seus próprios lugares encantadores e fora do radar. Muitos deles ficam exatamente nas áreas mais visitadas. A Casa di Santa Brigida é um desses segredos. Trata-se de uma hospedaria religiosa fincada no coração do centro histórico romano. Fica a poucos passos do caótico mercado de Campo de’ Fiori, dentro de um palácio do século XV vizinho ao Palazzo Farnese.

O local é administrado pelas irmãs da Ordem do Santíssimo Salvador de Santa Brígida. Elas vivem ali e frequentam as missas na igreja anexada à estrutura. Por cerca de 120 euros a noite, os viajantes conseguem um quarto mobiliado de forma simples, mas com banheiro privativo. Esqueça serviços de concierge ou limpeza profissional de quarto. Você provavelmente vai dormir com um crucifixo pendurado acima da cama e, sem dúvida, vão pedir que você faça silêncio. A grande aposta das irmãs é que os hóspedes saiam de lá carregando uma profunda sensação de tranquilidade. Quando um visitante sente essa paz interior, a madre superiora Gertrude Panakal diz que a missão delas foi cumprida.

Existem mais de 350 pousadas religiosas ligadas à Igreja Católica espalhadas por Roma. Segundo Fabio Rocchi, presidente da Associação Italiana de Hospitalidade Religiosa, o declínio das vocações nas décadas de 1980 e 1990 forçou as ordens a transformar conventos e mosteiros em hospedagens. Inicialmente, o foco eram grupos religiosos e peregrinos. Hoje, o apelo é muito mais amplo.

A beleza da simplicidade

O preço baixo é um diferencial enorme. A associação de Rocchi calcula que uma diária média num quarto duplo dessas hospedarias saia por volta de 90 euros, enquanto um hotel comum em Roma cobra o dobro. Claro que o visitante precisa esperar acomodações espartanas. O objetivo não é oferecer uma experiência de cinco estrelas, mas sim simplicidade e um ambiente que faça a pessoa se sentir em casa. Encontrar esses locais pode dar um pouco de trabalho. A lei italiana os classifica como estabelecimentos administrados fora dos canais comerciais padrão. Ou seja, as reservas costumam ser feitas por e-mail, telefone ou por meio de bancos de dados específicos, como o site Monastery Stays.

Para o viajante que busca uma visão intimista de Roma, essas hospedarias oferecem um ambiente seguro e super centralizado. A Casa di Santa Brigida, por exemplo, foi originalmente o lar de Santa Brígida, que deixou Estocolmo e se mudou para a Itália em 1349. O quarto onde ela morreu virou uma capela, aberta a turistas e peregrinos. O palácio em si até possui salões com cortinas de brocado e tapetes orientais. Já os cerca de 20 quartos de hóspedes são bem mais contidos, equipados apenas com cama e escrivaninha.

O café da manhã é servido pontualmente às oito da manhã, e os visitantes têm total liberdade para entrar e sair quando quiserem. O ponto alto quase imbatível da propriedade é um terraço amplo, no nível do telhado, que oferece uma vista panorâmica arrebatadora de Roma, emoldurada por vasos de flores e pela arquitetura de terracota. Durante uma visita recente, um grupo de mulheres de Estocolmo tomava café na sala de jantar. A Suécia não é um país muito religioso, comentou a turista Karin Kalmerstrom para explicar a curiosidade em torno da pousada. Elas queriam simplesmente entender um pouco mais sobre o que as irmãs fazem e como é possível levar uma vida de contemplação no meio do burburinho da cidade eterna.